Número total de visualizações de página

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A preto e branco (6)


Servem os bancos para a gente neles se sentar e dar às pernas o descanso reclamado, mormente quando os anos de todo o corpo lhes pesam em cima, não é por acaso que são os velhos os seus mais frequentes usuários, ainda que uma outra razão haja também para isso, e que é o facto de, sendo-lhes o tempo já escasso, lhes sobejar tempo, contradição apenas aparente, como é fácil de ver.
Porém, sendo aprazível o sítio, e de feição o momento e a companhia, podem os bancos, além do descanso, dar azo a que se solte a língua, ou o pensamento, ou ambas as coisas, não se julgue que não se pode dar à língua sem pensar, não faltam por aí exemplos que o comprovam.
Aqui, estando os bancos num jardim privado, ao abrigo da devassa de olhares curiosos ou indiscretos, ou até malevolamente bisbilhoteiros, convidam a que se embrenhe o pensamento por caminhos mais romanescos, não faltará quem já ali veja um par de enamorados, bem chegados um ao outro apesar da largueza do banco e da amenidade do tempo, bem sabemos que não são razões de espaço ou de temperatura que isto fazem, todos temos um pouco dessa experiência, faz parte da vida, mesmo da dos puritanos mais assanhados.
Mas enfim, vá cada um aonde o levar a imaginação, são muitos e variados os seus caminhos, não temos que dar sugestões a ninguém, imaginação é coisa que não falta, use-a pois cada um a seu bel-prazer.

domingo, 19 de julho de 2009

A preto e branco (5)



Vista Alegre
Fotos: Carlos Pádua (1999)

De duas maneiras se pode estar diante de uma janela: de fora, olhando-a, ou de dentro, olhando por ela para fora. Agora estamos nós daqui de fora a olhar esta janela, com vagar e sossego, como convém àqueles que, olhando, querem ver e apreciar, e por este modo vamos percorrendo, neste instante em que o tempo parou, os seus contornos em parte apagados pela folhagem que a envolve, os jogos de luz e de sombra, o labirinto de ramos ali à beira. E assim fica um pouco de nós neste recanto, como em nós fica a sua discreta e singela maravilha, a sua paz. Diferente é o estar de quem está de dentro. Vem à janela e, pelas vidraças, ou abrindo-a, é para além dela que estende o seu olhar, para ver o tranquilo espelho da ria, ou o arvoredo e o casario defronte, ou alguém que passa na rua, ou simplesmente para espreitar como está o tempo. E não faltam ainda as ocasiões em que os olhos, parecendo estar a olhar para fora, estão apenas a ver o que nos vai por dentro.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A preto e branco (4)

Vista Alegre
(Foto: Carlos Pádua, 1999)

Está o portão entreaberto, entremos. Não nos levarão a mal a bem intencionada curiosidade, quem se iria sentir molestado por lhe louvarem a beleza do que é seu? O que de fora se vislumbra apraz ao olhar, mas a curiosidade, essa, não fica apaziguada, há por certo muita coisa que daqui se não vê, e o portão, assim como está, é como um decote fazendo sugestões, perdoe-se-nos o despropósito da comparação. Que o bicho homem (aqui obviamente incluídas as mulheres) sempre assim foi e continuará a ser, não descansa enquanto não vê na totalidade o que apenas se lhe entremostra, e não falta quem insidiosamente explore esta nossa fraqueza, ou virtude, dependerá do ponto de vista, ainda que depois o que antes estava escondido e agora se mostra ao olhar fique aquém do que se esperava. Mas não será esse o caso aqui. Entremos, pois.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A preto e branco (3)

Vista Alegre
(Foto: Carlos Pádua, 1999)


Para lá deste arco não consegue romper o olhar, daqui donde nos encontramos. A imaginação sim, já lá vai, está já construindo imagens na nossa mente. Não tardará que também os passos nos levem um pouco mais adiante, e então veremos se aquilo que os olhos vêem é o mesmo, ou parecido, ou totalmente diferente do que viu a imaginação. Até lá, apreciemos simplesmente o que aos olhos é dado ver, e no fim acharemos por certo que não foi mal gasto o nosso tempo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A preto e branco (2)

A ria, na Vista Alegre
(Foto: Jorge Cunha, 1999)

Que a vista é alegre logo o nome o anuncia a quem chega, e não tarda que os olhos o confirmem. Assim o terá achado quem ao lugar deu o nome que tem, e nisso bem andou, dizemos nós, porque ainda hoje estão em boa harmonia o lugar e o seu nome.




terça-feira, 30 de junho de 2009

A preto e branco (1)

Ponte sobre o canal do Rio Novo do Príncipe, em Vilarinho
(Foto: Jorge Cunha, 1999)

Campos de Taboeira, no Inverno
(Foto: Jorge Cunha, 1999)

Esteiro de Esgueira, junto a Mataduços
(Foto: Carlos Pádua, 1999)


Casa de lavoura, em Cacia
(Foto: Carlos Pádua, 1999)


Obs.: Estas fotos, bem como outras que aparecerão em posts seguintes, foram feitas por mim e pelo meu amigo Carlos Pádua, em 1999, quando ambos érmos professores na Escola Aires Barbosa, em Esgueira, Aveiro.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

43º álbum - Castelo de Numão















A pequena vila de Numão está hoje lá em baixo, no sopé do monte, em sítio mais abrigado e doce. A progressiva acalmia dos costumes levou as gentes a abandonar os cumes agrestes e a fixar-se onde a natureza oferecia melhores condições de vida. Ao cimo do monte chega-se por uma pequena estrada onde quase ninguém passa e depois por um caminho pedregoso até uma das portas da muralha. Do que foi o castelo e a vila antiga, no seu interior, ficaram as ruínas, expostas ao tempo que tudo gasta e à solidão. Ouve-se ali o vento tanto como o silêncio, e vê-se o céu e os montes, uma represa no fundo de um vale, alguma vinha, e um sossego desamparado pairando sobre todas as coisas. E no entanto sabe-me bem estar aqui, talvez pelo sossego, talvez pelo vento, talvez por estes sarcófagos que me lembram como somos efémeros, talvez por estas amendoeiras que resistem no meio do pedregal, por estas colunas solitárias que se separaram do resto da capela, talvez pelas torres sombrias do castelo, pelos escombros das casas de pedra solta, talvez até pelo abandono e desprendimento de tudo.

domingo, 10 de maio de 2009

Pintura (9)

Manuel Cargaleiro
Portugal (Chão das Servas - Vila Velha de Ródão, 1927)