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domingo, 29 de março de 2009

32º álbum - Linha do Tua: in memoriam de uma vítima do "progresso"


A linha do Tua começou a ser construída a partir de Mirandela, em Outubro de 1884. Três anos depois, em 1887, era inaugurado o troço, de 54 Km, entre Mirandela e a foz do Tua, ligando-se assim o interior transmontano à linha do Douro. Para montante de Mirandela o processo foi mais demorado, e só em Dezembro de 1906 o comboio chegou a Bragança. Mas o troço entre estas duas cidades já é só uma memória: foi suprimido em 1992. Não deixaram que durasse mais do que 86 anos: apenas o tempo de uma vida.

A linha do Tua é uma obra notável da engenharia portuguesa da segunda metade do séc. XIX.

E é um hino à vontade do homem e à sua capacidade de construir mesmo nas circunstâncias mais adversas.

E rasga um dos poucos vales de rios de montanha praticamente ainda incólumes que subsistem em Portugal.

E é, em termos paisagísticos, absolutamente deslumbrante, única.

Foto: Jorge Cunha
E encontra-se, pelo menos no seu trecho final, no Douro, que é património da humanidade, como a linha do Tua, só por si, merecia ser.

Por tudo isto, gostaria de poder dizer que a linha do Tua é imperdível, que ninguém ousará destruí-la. Quem nela viajou um dia não poderá nunca perdoar a quem vier a fazê-lo.

Mas agora, ao som das trombetas consonantes da finança, dos tecnocratas, dos gestores, dos políticos deslumbrados com a obra fácil e dos ecologistas convertidos ao “mundo real”, a enxurrada das hídricas e das eólicas anuncia o fim da paisagem natural em Portugal. Como escreveu Pacheco Pereira, “as mais altas autoridades, incluindo Primeiro-Ministro, Presidente da República e Ministro da Economia, anunciaram com alegria a intenção de acabar com os últimos vales dos rios de montanha em Portugal para aí produzir “energia limpa”. Todos tomam como absolutamente assente que esse curso de eventos é inexorável, já está “decidido”, e engenheiros, economistas e outras profissões da gestão do dinheiro e da técnica, políticos da “eficácia”, gente desenvolta do Portugal moderno, rodeados de gestores da EDP e de autarcas desenvolvimentistas, sonham com barragens, albufeiras, geradores, torres de fios de alta tensão.”

Querem tranquilizar-nos dizendo que alguns troços da linha irão manter-se operacionais. Formidável consolo! Ficam uns restos da linha para nos lembrarmos! A parte mais emblemática, os últimos quilómetros até à estação do Tua, junto ao Douro, em que a linha foi heroicamente rasgada na escarpa e donde se desfruta de uma beleza selvagem incomparável, essa ficará submersa. Como submersos ficarão o vale e o ecossistema que abriga.
Não haverá soluções alternativas? É certo que a aposta em fontes de energia renováveis se torna cada vez mais indispensável. Mas é também indispensável saber conciliar essa necessidade com a defesa do património que nos foi legado, que é pertença de todos, e não de um qualquer governo, de uns quaisquer gestores e tecnocratas, de umas quaisquer confrarias do cifrão. A linha do Tua (o que resta, entre Mirandela e a foz do Tua) e a paisagem envolvente constituem um património colectivo de valor inestimável: património arqueológico e património natural. É um crime destruí-lo.
Quem quiser participar no "Movimento Cívico pela Linha do Tua" pode fazê-lo assinando a respectiva petição em http://www.petitiononline.com/tuaviva/petition.html
Fotos: autores desconhecidos

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